Quem é mais freak?
O show ou quem o assiste?
Antes de narrar os encontros reptilianos prometidos antes, para não esquecer a ideia nem a memória, espero que também os agrade a leitura desse escrito inspirado em insetos. Já adianto que, assim como outros escritores possuem sua característica literária pessoal, embora todos influenciados pelo repertório formado inclusive pelo que já leram, eu também me esforço para desenvolver uma espécie exclusiva, idealizada, na qual outras temáticas juntas formam uma única obra.
Começo com um causo de experiência própria que pode se chamar:
“Bem vindos! Não reparem as baratas”
Tenho uma paixão que é viajar; Conhecer experienciando culturas e lugares, aprendendo novas formas de viver e ser feliz; Senão bastam tais motivos para racionalizar esse hábito passional - e sabendo que a paixão pode ser a razão de uma ação ou costume mas nem sempre pode justificá-los - posso citar Gil: “Nos meus retiros espirituais, descubro certas coisas…”
Dessa vez, viajávamos de carona, eu com um grupo de quatro mochileiros, formado por aquilo que podemos chamar de acaso que, segundo a prática de Tristan Tzara e outras personalidades Dadas, pode ser bem criativo e positivo; Nos encontramos assim em uma reserva natural e nos unimos no intuito de atender ao convite para uma vivência em um evento denominado “World Rainbow Gathering”, que na ocasião seria no Brasil, numa fazenda de Cacau Orgânico, não tão distante dali, propriedade de um francês que havia disponibilizado seu território para a realização desse encontro, ligado ao movimento nascido das revoluções que culminaram em maio de 1968, conhecido popularmente por “Nova Era”.
Chegando em uma pequena cidade nas margens do Rio de Contas, como havíamos nos dividido entre as corridas nos trechos das BRs ao longo do dia e já que tínhamos nos reunido novamente lá, pensamos em descansar por ali; Por algum motivo, conhecemos um morador local na Rodoviária e passamos um tempo juntos; Aceitamos seu convite para pernoitar e preparar algum alimento em seu lar, posto no alto de um morro próximo, o qual subimos com certo esforço, já exaustos pelo dia longo da viagem com nossas bagagens.
Dica para iniciantes: Nas primeiras viagens, a maioria do que levamos, usamos pouco ou nem usamos, talvez ofereça um conforto ou facilidade a mais, mas não compensa o peso e o que precisamos, muitas vezes esquecemos de levar. A bagagem é sempre relativa, por isso só posso aconselhar que vale gastar algumas horas pensando, escrevendo uma lista e, a partir dessa, escolher os pertences, testando o peso empacotado, imaginando carregar a tralha nas trilhas ou por lá; Ver as condições climáticas do destino no período escolhido, ter em mente que se pode lavar roupas durante a trip e que muitas coisas podem ser adquiridas posteriormente se preciso; É bom também ter um foco de atividade econômica se for preciso, por exemplo, malabares, música, artesanato, fotos e etc... Pense numa especialidade, melhor mesmo se for uma, mas se sentir que precisa mais, organize um esquema considerando peso e volume. Uma mão, no aeroporto de Weeze, próximo a Dusseldorf, estranharam minha presença latina com apenas uma mochila, relativamente pequena e me inquiriram: “está com drogas? fala a verdade, o que veio fazer aqui?”, respondi naturalmente e me liberaram, porém, chegando no aeroporto de destino, Milão-Malpensa, tinham alguns oficiais me esperando e me solicitaram que os acompanhasse à uma saleta para averiguar o que eu carregava…”como assim vem para europa só com isso?” Não encontraram nada irregular.
Voltando ao Rio de Contas, nessa trip, a minha mala pesava; chegando na casa do anfitrião que nos convidou na rodoviária, este abriu a porta da frente e entrou primeiro no breu da casa; Esperamos ele acender as luzes na porta da frente, onde a luz da rua iluminava. Depois de acionado o interruptor, assim que os fótons gerados pela incandescente da sala tocaram as paredes marrons do ambiente, agora mais iluminadas, se tornaram brancas; A sala não era marrom, só estava salpicada uns tantos por cento por baratas que, no instante em que a claridade se fez, se esconderam. Ninguém falou nada mas a cena era de se comentar algo com certeza.
“Podem tomar banho”, nos ofereceu, eu atendi e o fiz intimidado pelos olhares frios e antenas vacilantes que me sondavam, inúmeras delas. Foi a primeira vez, creio, que vi um inseto desses e não ataquei. Depois dessa experiência, outras vezes na clandestinidade em casas simples ou mais sofisticadas, me encontrei com elas e essas se faziam aparecer como que para se mostrar para mim e serem aceitas, me olhando e eu tendo que, ou tentando, agir naturalmente com aquela presença. Até existe o hábito de chamarmos outros de nossa própria espécie de baratas, quando de alguma forma nos desagradam. Era como se elas estivessem ensinando:
- Chamem seus desafetos de outros nomes, não somos desprezíveis nem nojentas, talvez vivemos e limpamos a sujeira que vocês produzem e isso, convenhamos, é até legal de nossa parte; tem mais: Nem ao menos temos essa dita superioridade cognitiva, racional e intelectual.- Conhecer “A Metamorfose” de Kafka, pode nos ajudar nesse entendimento.
Saí do banho, o anfitrião estava cozinhando um rango já bem acostumado com a espionagem das baratas, camufladas aqui e ali, em pontos dispersos da cozinha, ao que parecia, esperando ansiosas os despojos da refeição que haveria de vir - mas nossa fome era tanta que não sobrou quase nada, raspamos até as panelas e retribuindo o gesto do anfitrião, lavamos a louça, fogão e até passamos uma vassoura; tiveram que se contentar com aquilo que já comiam antes da nossa visita.
Mais uma vez, ninguém comentou mas,uma me incomodou muito, por seu tamanho avantajado e pela sua posição, então o avisei: “Man, tem uma barata no seu ombro.” Ele sem parar de cozinhar nem de falar conosco, deu um tapinha de leve na bicha que voou para alguma camuflagem mais apropriada.
Nordeste brasileiro, calor daqueles, mas dormi coberto da cabeça aos pés; suava, ouvia o roçar de suas patas pelos materiais da casa; Se eu não as tivesse visto antes, haveria de ter pensado que fossem ratos ou algo sobrenatural.
Claro que no conto anterior foquei nas ditas cujas, mas no geral, nossa estadia e contato foram bons; Demonstramos nossa gratidão; É que, pensando na sensação daquele momento, talvez fosse preferível os quartos embolorados, úmidos e, ou mal ventilados que já habitei (inclusive cresci num); Também podem ser propícios para baratas mas, além de serem mais frios, sendo mais confortável dormir coberto, há uma característica interessante nesses espaços: Conferem aos seus hóspedes problemáticas para seus sistemas respiratórios, principalmente a Bronquite Asmática e a Rinite Alérgica, temas desta próxima narração, em duas partes; a primeira poderia ser apresentada naquele programa “Contos da Meia Noite” da TV Culltura. Aliás, devo relatar também que, depois de ter começado esse conto, encontrei coincidências, acasos dadaístas ou sincronicidades entre meu escrito, esse programa de tv e o livro de Machado de Assis, “Histórias da Meia-Noite”. Segue o texto:
I
Acalento da Bronquite Asmática
Estamos em Diadema, 1992. Uma criança acha mais que normal, divertido e prazeroso, dormir em casas alheias, de tias, primos, colegas e etc. Sabendo que a comunicação entre ela e suas amizades, familiares ou não, é quase que exclusivamente presencial, pois não têm telefones ou qualquer outro meio de se acordarem senão pessoalmente - por cartas, bilhetes, recados radialistas ou por intermédio de quem está indo ou vindo não convém nesse caso - hoje, sábado, como também poderia ser no domingo, na véspera ou em algum feriado, é dia que as famílias se reúnem no quintal conjugado de certa matriarca, o que promove o encontro entre elas e, sendo assim, aproveitando o ensejo, combinaram de dormirem juntas na casa de uma avó; Lógico que antes devem passar pelo processo:
- Pede para sua mãe.
- Fala você que é melhor.
- E se pedir para seus pais falarem com os meus?
- Estão me enchendo o saco, vamos deixar dormirem aqui, tudo bem?
Sucesso! A resposta de hoje foi sim; Poderiam passar horas jogando bola, videogames, partidas de tabuleiros ou cartas, brincando de verdade ou desafio e outras brincadeiras mais ou menos sociais. Mas também tinham as contações de histórias de terror na fogueira e os filmes de horror em fitas vhs que alugavam na locadora do bairro para passar no videocassete; Uma criança pressupõe como mais emocionantes e reais, nessa linha, as brincadeiras do copo e do compasso que consistem em consultar o desconhecido que, após orações e preparos, movem esses objetos, sob o toque leve de seus dedos, sobre diagramas alfanuméricos com Sim, Não e outras respostas e comandos básicos. Para seu contentamento, escolheram essa atividade para depois de jantarem o macarrão e assim foi:
- Quem está aqui?
As movimentações escreveram:
- F - U - L - A - N - A - D - E - T - A - L
- Quero brincar mais não, vou entrar… - Alguma disse.Tem dessas.
- Espera, senão vai ter que ir todo mundo.
- Preciso ir, quero fazer o número dois! - Decidiu dizer, achou menos vergonhoso que assumir o temor, mas poderia falar que estava com frio, fome, sede ou qualquer outra desculpa que disfarçasse seu sentimento. - Espero lá.
- Ah! Entra sem chamar atenção então.
Como se isso fosse possível em residências pequenas; A medrosa partiu, mas continuaram:
- De onde você é?
- C A F U N D O S D O B R E J O. - Resposta.
- Você é o que?
- Mininus, quasi onzi Já tá tardi! hora di deitá! [sic] - Alguém interrompe a diversão, chamando no portão;
Como elas querem esperar a resposta da pergunta que fizeram antes, simultaneamente bradam incomodadas e de forma automática,:
- Tá bom, tamu inu! [sic]
Mas a voz autoritária acelera:
- Caminha, anda lógu! [sic]
Acelera, não se arreda com as chaves na mão e como quem soubesse que haveria resistência à obediência, apresenta o porte de uma tira feita de borracha que usa para estalar após gritar. Quem recebeu o chamado teve que atender. Uma criança já conhece as vicissitudes da rua e a cidade no período em que está é a mais violenta do país; Essa noite podem ser vistos vários camburões passando, a função “mó chave” e comum nos bailinhos, praças e esquinas, também alguns enquadros e discussões, tudo normal para ela mas, como está em outra residência e pela disciplina implícita de favela mas ainda não institucionalizada por nenhuma organização, a qual sujeita à pena arbitrária os seus infratores e que, dentre o conjunto de comportamentos necessários para um bom convívio no dia-a-dia, chamado de “proceder”, se encontra o de respeitar geral, ainda mais os responsáveis e mais velhos e acrescentando por último mas não menos importante - diria até que o mais pertinente - o fato de que algumas poderiam apanhar em casa, decidiu portanto e sem dúvidas com as outras por entrarem. Normalmente executavam uma espécie de liturgia para fechar a sessão mas, quebrar tal protocolo lhes pareceu menos passível de punição do que desacatar a ordem da autoridade doméstica. Mesmo assim, pediam licença e perdão, com suas vozes, enquanto desfaziam a brincadeira.
- U cochãu tá im riba du maleru, já pega umas cuberta qui tá lá drentu, si precisá di mais trabisseru tem umas almufada nu sofá, podi durmi lá tamem.[sic]
Ajustaram o aposento.
Aí vigora uma regra que, como as dos jogos de bolinhas de gude ou de bater figurinhas, é válida para quem falar primeiro; hoje quem pronunciou antes de todos “Canto” e também “Canto, pé no canto”, mesmo que de tarde, dormirá seguro e confortável, ladeado pela parede e pelo corpo de quem divide o leito. Uma criança dormirá com aquela que falou a segunda frase primeiro, a mesma que entrou antes de todas. Deitaram e se cobriram.
- Pode desligar a Luz? - Um adulto fala, mas ninguém responde.
“Plec”. Interruptor desligando a luz. Escuro.
Às vezes tinha a segunda chamada, como nessa noite:
- Vou desligar o abajur.
- Nã-nã-nã-nã não não, não, deixa aceso, por favor. - Aquela que vocês já devem saber qual, reclamou.
- Calma, tá com medo é?
- Qui ô! Se liga! É que se eu for no banheiro de noite….
- Ah, tá...Boa Noite.
- Boa Noite. - Em coro.
Aí não podem mais rir, mas por isso mesmo riram; veio um “Vai durmi!”[sic] e a interjeição soou engraçada e tinham que se segurar; de alguma forma o fizeram.
Pronto, eis o silêncio. Ô Soninho bom, depois do lazer, com as estimadas pessoas!
ZZZZZzzzzzz
Então, de madrugada, a geladeira acorda com aquela trepidação; Uma criança desperta com aquilo. E agora? Essa penumbra não lhe parece divertida. Filmes, histórias e manifestações de pouco antes pipocam em sua mente. Um soturno suspense, oriundo de sua mediunidade aflorada ou imaginação exacerbada, brota em tudo.
No recôndito, sob a cama de casal, o que há? Ela só enxerga um penico, os pés de um tamborete e um par de “percatas” [sic] com um dos pés emborcados; quis desemborcar como de costume para evitar azar mas, mexer ali...algo desviou sua atenção, voltada agora para a penteadeira, que como uma dessas desconhecidas, embutidas em guarda-roupas ou improvisadas sobre cômodas, tem bobs, presilhas para cabelo, escovas, pentes, potes e frascos de cosméticos embaralhados com perfumes envasados em vidros nos quais podem cintilar brilhos fugazes de origem insólita; atentou-se ali por que uma fagulha rutilou e teve o efeito amplificado pelo plano de fundo do espelho, que normalmente acompanha esses arranjos, onde, inclusive, reflexos fortuitos podem apresentar fantasmas e “Eita porra!” é que viu alguém espelhado! “A não, Ufa!” É só um desses antigos retratos-pintados ou só emoldurados ou só pendurados, com sinistros olhares que nos fitam e podem piscar, sorrir ou transfigurar; Relaxa, mas algo em seguida a faz exclamar em pensamento: “Que droga, Mano! Por que uma Vó deixa essas bonecas estranhas expostas? Podia guardar na caixa de brinquedos...Se eu contasse que vi uma tocar no vestido da outra vão pensar que é mentira.”
Se concentra, encosta mais na parceira e fecha os olhos por alguns minutos.
………..
Mas alguém se revirando na cama a faz levantar as pálpebras. “Eu, hein!” Pensa ao perceber que a neném, através das palafitas descascadas da grade do berço, está de olhos vidrados nela, depois olha para uma posição tangente e equidistante, balança pernas e braços e sorri. “Para o que? É na direção da TV, será que ela vai ligar sozinha com aquele chiado trazendo mensagens do além ou com aquelas reportagens, imagens ou vinhetas cabulosas de espíritos, santos ou ETs? E o rádio próximo?” Não tá chiando, mas a lembra de Eli Corrêa, narrando pavorosamente seu “Que saudade de você”.
Desvia o olhar, esfrega o rosto, mas nas prateleiras e por toda parte ela percebe bibelôs das lojas de presentes e sabe, pois já ouviu dizer, que se deslocam sozinhos. “Ó lá! O bichinho de porcelana quer se mexer” e…brrr-buuum! Troveja!
“Meu!” Exprime internamente; é que lá fora o cachorro uivou longamente! Um gato derruba o balde no tanque, ronrona e mia esquisitíssimo! Quando parou ela ouve: Toclof, toclof, toclof, toclof, …”São passos, só podem ser, mas de onde?” Ponderava quando ouviu o som de dobradiças rangerem! “De qual porta?” Prefere pensar que é de alguma alocada em uma das paredes compartilhadas por outras casas, mas “Carái!” exclama sem voz ao ouvir o que parece ser uma fruta rolar da fruteira para a mesa e, na sequência, a louça tintilar, escorregando do escorredor para a pia; como senão bastasse, a geladeira trepida de novo, se desligando muito antes do usual; “Fudeu!” Pensa que pode ser uma presença gélida ali, tornando desnecessário o esforço motor refrigerante do eletrodoméstico. “Alguma alma penada chegou? O que há no cômodo ao lado?” Em seguida a estante perto dela estalou, “Crendeuspái!” faz sinal da cruz, figas, reza e ora, visto que sobre ela há um altar arranjado com estatuetas, oferendas e velas de luzes tremeluzentes, movimentando sombras onde oscilam assombrações e de repente um meta-corpo se desprende daquela tenebrosidade e se funde à bruma produzida pela meia luz colorida da lâmpada de poucos watts do abajur em cima de um criado-mudo; a figura perambula ali e sobe a parede, vaga pelo teto, quando se pode escutar ruídos nas telhas, indo se ocultar atrás das cortinas rendadas que agora balançam na parede, encostada no colchão no qual está deitada; “Graças, não fiquei no canto!” pensa. “Mas o que será?”
O tique-taque do relógio despertador de ferro intervala com a goteira do chuveiro aparada por uma bacia de metal no banheiro, aumentando o agouro; a renda se agita intensamente. “Vish!” A pessoa com quem divide o leito, encostada na parede sob a janela encortinada, dormindo, se contorce e balbucia interdimensionalmente seu pesadelo ou está possessa e troveja de novo, a cortina cai, a pessoa se enreda no rendado com os olhos semicerrados mostrando apenas o branco, baba espumando e pronuncia estranhezas quando: pã-pã-pã-Pãããã:
Nem se incomodou. Esta noite ela agitou a pessoa e sussurrou à que dormia ao seu lado, para que se recobrasse, normalmente:
-Ei! Ou! Shiiiii! Tudo bem, tudo bem! Para de me bater e se debater! Vai acordar o pessoal dormindo.
A pessoa dando as costas e cotovelando:
- Sai!
- Calma! O que foi? Tem gente lendo também.
Voltando a consciência, ela responde no mesmo tom, sussurrado mas ranzinza:
- Mano, tive um sonho esquisito….Fulana de Tal estava contigo e eu queria te afastar dela, mas parecia que vocês estavam me pirraçando e perturbando...muitos queriam me fazer crer que vocês eram até casados!
- Calma! Foi só um sonho...mas fiquei curioso...como é a Fulana?
- Não quero falar!
- Ah! Porque não?
A resposta foi aquele característico som de reprovação que especialmente as mulheres fazem, um misto do “Tsc”, conhecido dos HQ’s, feito estalando a língua no céu da boca, seguido de um “Ahhh” da garganta, que expressaria uma sede saciada, mas nesses casos, é acrescido de um “R” prolongado, raspando não sei bem ao certo se a laringe, faringe ou cordas vocais; Já ouviram? No meu esforço de transcrever em onomatopéia aqui seria:
- Tsc, Ahrrrr!
- Que foi? Qual o problema?
- O problema é que eu a conheço…
- Sério? E eu também?
- Pára, esquece!
- Que custa me contar? Foi só seu sonho, e daí?
- E daí que não admitiria e nem quero que você imagine.
- Meu! Eu também não admitiria se fosse real... você não está enciumada do seu próprio sonho? Já não basta desconfiar dos meus?
Após uma pausa, ela responde:
- Mas o que você está fazendo aqui? Olha a idade que já temos? Você não estava na sua primeira década, na fábula desse autor que nos escreve? Conclui lá, quando chegar aqui conversamos.
- Te amo! - Beijou a companheira e cafungou seu cangote antes de falar - Nisso concordamos, minha eterna e verdadeiro Amor!
- Você acredita que tal relação possa existir?
- Com certeza, e você?
- Posso dizer que sei mais que você e é lógico que isso existe. Me pergunto se sou essa, seu Amor que tu descreves.
- Já que sabes mais do que eu, eu sou esse seu Amor?
- Sinto que sim, seu besta! Mas estou tentando me certificar se me interpreta assim.
- Estranho. É como se ainda não nos conhecêssemos. Como posso te certificar disso?
- Você está certo de que sou sua verdadeiramente amada?
- Eu também sinto que sim, sua bobona! mas não sei mais (ou ainda) quem tu és, se valoriza e respeita nossa relação; Igualmente quero me certificar.
- Eu também te amo, Cara, não sei o que poderia dizer para extravasar minha raiva, raiva de te ver se emocionando com ilusões.
- Ilusões do tipo que você tem, por exemplo, nesse seu sonho que acabo de te despertar?
- Pode ser, mas você também não gostaria se eu imaginasse outras relações, por isso te azucrino ás vezes, em seus sonhos e trabalhos.
- Sua chata! Que raiva!
- Tá vendo!
- Por que não me diz logo quem és e acaba com as incertezas, já que disse que sabes mais que eu?
- ...excelente ideia mas e se eu te dissesse que sou mais que uma?
- Te responderia que mesmo que eu experiencie aqui, em imaginações e sonhos, outras, que inclusive podem te representar, é por que você, por algum motivo que desconheço, não se manifesta nessa realidade que experiencio; Não casei nem me comprometi ainda, na real, ainda espero você ou vocês.
Ela pensa...A personagem central desse conto se apaixona ainda mais ao observá-la olhando o teto e sorrindo ao dizer:
- Lembra da idade em que estamos. No nosso entendimento, podemos compreender os textos e teorias que afirmam que o pensar já pode representar um fato.
- Não no meu caso. Não tenho informações suficientes. Exemplo: em que idade estamos? Fale comigo e me transporte para o seu tempo para que eu possa ter o mesmo entendimento.
- Não posso e nem é possível. É um processo pessoal e individual seu. Ninguém sabe quem eu sou, você deveria saber mas saberá um dia; Mesmo assim, já me sinto bem por ter se lembrado de mim, mesmo que não saibas, exatamente, quem sou.
- Por que não vem e contribui com esse processo?
- Você me reconheceria se eu aparecesse aí?
- Podemos combinar um código.
- É uma boa...Já sei - Confidencia um sinal, em off, ao ouvido dessa personagem.
- Gostei, para não ter erro, responderei… - comunica da mesma forma sua resposta à companheira.
Abraços, risos baixos e chamegos. Ela diz:
- Tenho certeza que me ama e sei que esse é seu trabalho e serviço. Me desculpe se atrapalhei a obra e lhe asseguro que sou seu Amor verdadeiro e fidelíssimo; aguardamos ansiosamente seu regresso. Mas para contribuir com esse seu trabalho artístico, podemos dizer, quero te lembrar que precisa concluir esse escrito.
- Tens razão. Te entendo agora quando diz que você seria mais que uma, é como se cada fala sua fosse dita por pessoas diferentes e essa última fala parece ser a mais verdadeira.
- Pois então, eu sou essa. Não esqueça nosso combinado, mas foque na sua missão, cumpre e vem.
- Concordamos nisso também... Eai autor? O que tá pegando?
Que doidera! Eu, quem vos escrevo, tenho que responder a minha própria personagem; agora posso entender o relato de um escritor que muito me impressionou mas me foge o nome aqui, confessando sua dificuldade em ficcionar…reconheço que nesse intento, envolvi anseios, certezas e confissões particulares, por isso, só respondi:
- Ops! Desculpa Criança! Misturei as memórias com outras possíveis dimensões reais. Me surpreendi com você falando diretamente comigo, mas agora tu sabes que és parte de quem sou né?
- Quer dizer que eu sou você no passado ou você sou eu no futuro?
- Tipo…mas tu és um tanto quanto confabulado, acrescido de criatividade artística.
- Hunnn...meio que entendi
Ela interrompe nossa conversa:
- Então, conclui logo essa estória que estou aqui esperando.
- Já vai! - Uma criança e eu falamos juntos, realmente sem sabermos ao certo, mas sentindo forte quem nos falava.
- Onde estávamos mesmo? Perguntei
- Despertava a pessoa que dormia comigo e que parecia ter um pesadelo com a manifestação da brincadeira do copo ou compasso. - Uma criança responde.
- Ah sim!
Explico a causa de sua tranquilidade nessa atuação e voltando a falar agora diretamente sobre ti:
Talvez não ali, mas com mais probabilidade nos dormitórios mofados e caracterizados no prólogo deste conto, que de madruga poderia considerá-los lúgubres, se ela despertasse por qualquer motivo, a respiração maciça, sibilante e a tosse de uma acometida nos brônquios lhe tranquilizaria; Esse respirar ressignifica, desde sempre, suas noites em si, como a dessa narração, alguém na casa o tinha, por isso, nessa madrugada, uma criança desencanou do soturno suspense e ninou sua parceira, nanou a neném agitada, ajeitou a cortina no seu lugar e até se imaginou sendo tipo o bicho papão, podendo aterrorizar quem dormia; Percebeu-se vivenciando um sonho lúcido, vendo, ouvindo vultos vagantes e inclusive, interferindo ou vislumbrando uma arte, como a desse conto.
Nessas divagações, voltou ao mundo do sono até que o Quebra-Queixo, produtos de limpeza e outras ofertas anunciadas no gogó ou em alto falantes, surgiram com o “Bom dia!”, momento de saber quem se incubiria da tarefa de ir na padaria comprar pão e o litro de leite C para tomar o café da manhã.
Ninguém se voluntariou, dado que a tarefa é um tanto quanto exaustiva: Remover as bolinhas de coberta do cabelo, lavar o rosto para tirar as remelas, babas e catarros e colocar uma roupa mais apropriada; claro que essa primeira etapa poderia ser ignorada como na maioria das vezes, mas mesmo assim, ainda tinham que, depois de sair da casa, no quintal, descer um lance de degraus antes de subir dois para abrir o portão e percorrer a viela até a rua, subir sua ladeira e lá em cima, para cortar caminho, atravessar a cerca de arame farpado de um terreno baldio, conhecido como “murão”, que poderia estar com um cão solto, pular o seu muro no fundo para alcançar a travessa que leva ao escadão que, descendo, chega na avenida, dali então, caminhar umas centenas de metros até o estabelecimento, adquirir os itens e voltar com tudo intacto.
Para resolver o impasse sobre quem iria, pensaram em jogar “2 ou 1”, “Jokenpô”, “Par ou ímpar” ou o tradicional “Cara ou Coroa”. Vendo a labuta dos menores, um adulto solucionou:
- Pode comprar doce com o troco.
Foram todos. Às vezes deixavam o valor adquirido para o fliperama ou outra parada mais tarde.
II
A Rinite Alérgica
Talvez o som da rinite seja menos volumoso que o da sua parceira de dupla mas o seu cheiro é percebido com a mesma intensidade por essa criança. Descrevo melhor já já, mas na insectológica, nesses locais descritos na apresentação desse conto, as traças podem ser uma moléstia; Com tempo, devoram páginas de todos os volumes da enciclopédia colecionada e de outras publicações e livros; Podem danificar os diários, agendas com suas colagens, cartinhas de amor, correspondências remotas, cartões de natal e de feliz aniversário, convites de casamento, chá de bebê e batizado guardados; Carcomem certidões, documentos burocráticos e comprobatórios arquivados; Furam as roupas de domingo ou os trajes reservados para uma próxima celebração mais chique; “Tenho esse vinil, vamos ver a letra no encarte. Ahhhhh, tá roído bem na parte!” “Tem uma foto aqui do seu avô quando era criança, quer ver? Ihh! tá esburacada!”
Quando se está desmotivado, depressivo, solitário, trancado, desprezado e, ou escondido, dissemos que se está “jogado às traças!” (acho que aqui vale um adendo: essa expressão tem valor diferente de “Ostracismo”, mesmo que no sentido usual e histórico se pareçam, no sentido natural, a segunda representa a fase em que ostras ou outros criadores, estão reclusos em profundidades e pressões, produzindo alguma pérola)
Para controlar essa e outras pragas, é comum o uso de Naftalina em bolinhas brancas que são depositadas em gavetas e armários; Uma criança, numa dessas noites em lares de outrem, pegou emprestado uma roupa pouco usada para dormir, exalando naftalina; Sem problemas. Sobrepondo ao desse composto, o cheiro da rinite é maior. Não, não poderia dizer que é ruim; na verdade, cá entre nós, até achou atraente; percebê-lo a fez estar íntima de quem o possui.
Lembro de Tereza no romance “A insustentável leveza do ser”, que seduziu Tomas quase sem querer quando quebrou uma regra principal da prática dele com mulheres, dormindo em sua casa, em sua cama, o que conseguiu tomando algumas iniciativas singelas e naturais; Um ponto que o escritor achou importante relevar nessa conquista, já que o escreveu e que para mim, um leitor, pareceu o mais significativo, foi quando ela se deitou gripada ao seu lado e o fez sentir o acre de sua respiração febril. O romancista deixa claro que a realização do instinto inerente nos humanos, focado no masculino, de cuidar da sua parceria, pelo menos num primeiro estágio, ainda mais quando fragilizada, foi essencial para o ínicio dessa ligação e é evidente no escrito que a reciprocidade, quando sentem o mesmo e a transparência, quando conversam, contribui na perpetuação da relação e na transformação individual e consequentemente, do casal.
Falando nisso, escrevo aqui “Um breve ensaio sobre as mulheres do mundo e suas culturas” que, é óbvio, só revela minha humilde opinião pessoal sobre alguns fatos e dados, que observo pessoalmente ou pesquiso e verifico. Que bom se for relevante:
Considero, depois da verdade - de saber e sentir que estão sendo como são mesmo -, o jeito, manias e maneiras femininas como principais na arte da sedução; Melhor esclarecer que não necessariamente para fins de conquista, mas que apraz a percepção estética; Como ouvir uma boa música e contemplar uma obra-prima, torna a pessoa atraente e agradável;
Sabemos que as estadunidenses são o padrão de estética atual, o ocidente inteiro segue essa norma e o oriente é bastante influenciado por ela; Se ligarmos o televisor, abrirmos um impresso periódico ou acessarmos um site, facilmente nos deparamos com esse arquétipo de caucasianas, majoritariamente, mas também de negras ou latinas; As nativas aparecem menos.
Mas com aquilo que vivencio na maior cidade do hemisfério sul, do feminino e seus detalhes, me impressiona bastante, por exemplo o olhar míope. Quando querem observar discretamente mas não tem o foco, apertam os olhos, ou os abrem por de trás dos óculos, às vezes fogem e disfarçam para voltar a observar, com aquela curiosidade natural. O estrábico também. Meigo. Há um que de delicia nisso, mesmo quando momentâneo. Se percebem que estão sendo notadas, podem ficar sem jeito, o que é um jeito tenro também; mexem no cabelo, tocam na roupa, mexem na bolsa, verificam o celular...tem as que não desviam o olhar, talvez até olhavam primeiro, aqui pode caber um polido cumprimento: “Boa noite”. Gosto quando estão se maquiando ou se ajeitando na rua, aprecio mais a beleza natural, mas algumas ocasiões exigem, a fazem brilhar e o cuidado e delicadeza com que se produzem é bem feminino.
O caminhar então é um show. Caetano falou da deselegância discreta das que vivem na capital Paulista; Um dos pontos que provocam esse desalinho é que não caminham muito (com exceção das maloqueiras com seu gingar despojado, que também considero uma obra de arte); vão do apartamento para o elevador, do elevador para algum automóvel, mesmo os coletivos, e desses para alguma sala com trabalho ou estudo que permite ou exige pernas estáticas e, quando andam, tem um jeito meio que desengonçado, lindo; Poderia dizer que a referência dele se aplica a todas que vivem em metrópoles, mas por exemplo, lembrando Vinicius de Moraes, a garota que o inspirou em Ipanema e foi musicada por Tom Jobim nos idos anos 60, pode ainda representar as cariocas que possuem mesmo um doce balanço que de maneira nenhuma pode ser considerado deselegante; A presença enorme do mar e sol intensos, inferem a elas, além da cor e vivacidade, uma poética única. Mas o que é uma poética em uma mulher? Poesia pode ser épica, soneto, trova e tem a fluminense; Reparei que caiçaras brasileiros se inspiram no Rio e a galera de cidades do interior tendem a se referir à Sampa, até ao escolher o time de futebol para torcer; Temos que levar em conta que a cultura dessas capitais é formada e influenciada pelas de outros estados, causa de migração ou pesquisa artística.
Podemos representar sim as mulheres latinas no geral, mas já ouvi certa reclamação de um que disse que o único país dessa região que se refere aos conterrâneos como gringos, e não como hermanos, é o Brasil (É preciso dizer que Canadá e Estados Unidos são como um nesse sentido? Tomara que um dia também sejamos todos americanos, bem integrados); De alguma forma, somos uma amostra da latinidade; estive no Paraguai, realmente muito parecido conosco mas, além da língua, os traços Guaranis, nativos desde o pré-descobrimento, estão vivos lá, da língua às têmporas. na Argentina e Uruguai, constatei aquela afirmação de que são a Europa da América do Sul, no entanto com essas qualidades que estão evidentes no Brasil, especialmente a simplicidade, porém o hábito gastronômico, que pode ser conhecido pelo consumo do café, pães e vinhos, já é bem mais apurado; Modernas em estilo e filosofia, também penso que são mais politizadas e unidas. Alguma das características que atestam a insígnia de que são a Europa no Sul, ao lado do clima e um proceder urbano mais depurado; Essa última qualidade também é das Mulheres que descendem dos Impérios e metrópoles Incas, Maias e Astecas, milenares, junto com a pele corada, diferente mas similar à da mulata, o olhar puxado e cabelos lisos e negros. São culturas contemporâneas descendentes e inspiradas no velho mundo; Viveram muitos séculos em aglomerados;
Não sei como as parisienses caminham e se portam, já que possuem forte referência de elegância, sendo uma das, senão “A” Capital da Moda. Também ainda não sei sobre as de Londres, sendo o signo da Realeza atual; Pelo menos observei quando na Europa, mormente em Munique, Milão, Messina e Milazzo, localidades relativamente próximas, que é bem comum se portar como em uma passarela ou em uma côrte, ou assim me pareceu. Com certeza são a principal ascendência do padrão Ocidental, liderado pelos EUA;
Mesmo nas que estão fortemente influenciadas pelo ocidente, e.g. as kpops e apesar das cores, criatividade, estilo e do jeito encantadores, o que mais me chama a atenção nas orientais é o seu jeito grave, sério e até taciturno guardado na sua intimidade; É notável, nós do ocidente consideramos isso bem sensual, nas descendentes que vivem entre nós ou nas que visualizamos, assistimos, além de aceitarmos sua liderança intelectual (vide pedidos e registros de patentes por países), que evidente, é uma forte atrativa.
Vivem nesse mesmo lado da Terra e tem essa mesma referência, mas compreendendo que tem particularidades únicas, por isso confesso que atualmente sei pouco sobre as que vivem no sul da ásia; abordei o movimento Hare numa monografia e até já foram retratadas em novelas aqui, posso escrever que é indiscutível a volúpia de suas danças, adornos sedutores e intrincados artifícios de produção de imagem pessoal, de Budistas, Hindus ou não, que, acrescidos da já complexa Indústria da Beleza, distinguem totalmente os gêneros e dão à elas talvez a imagem mais suntuosa, feita especificamente para a conquista; Yoginis originais ou de outras condutas semelhantes, tem a prática do celibato e auto-controle, mesmo assim, ou pode se dizer até que, por isso, portam a erudição do prazer divinal. É preciso registrar aqui que, por essas e outras, são protagonistas do Kama Sutra, certamente, o manual mais aclamado das relações íntimas.
Já que constituída por ilhas, em boa parte, isoladas e, como a maioria, não tenho muito acesso à essas, mesmo por meios midiáticos, o que considero relatar sobre as da Oceania, é que o que tem de exclusivas (como em todo lugar) são suas culturas nativas e aborígenes, felizmente preservadas mesmo sabendo que já influenciam e são influenciadas pela cultura ocidental, especialmente na Austrália e Nova Zelândia, que vale lembrar, estão entre as primeiras nas listas dos índices IDH e Relatório Mundial Felicidade; propriedades que aguçam a vontade de conhecer mais, presenciar: Quais particularidades dessa humana e do seu convívio com elas?
Estreitando o foco para o oriente médio, respeitando as particularidades da ortodoxia cristã e do judaísmo, que já são mais próximas do ocidente, ainda que suas adeptas compartilhem também de características locais, incluindo fenotípicas, com suas coabitantes, atualmente o que mais conheço do mundo árabe está relacionado às crenças e aos modos e vestes provenientes, que foram objetos do meu estudo acadêmico; Até já presenciei por aqui, mas quando estive em Casablanca, Marrocos, pude observar e vivenciar melhor a postura ultra respeitosa, discreta porém marcante e forte da Muçulmana com seu Hijab, item fundamental para a aplicação da Modéstia, um preceito do Islã, descrito no Alcorão, que para mim as torna sublimes. Do pingo que se pode observar delas, isto é, os característicos olhos amendoados, o supercílio corpulento, o nariz acentuado e em harmonia com lábios polposos, quero afirmar com todo o respeito que a cultura exige que são lindas! Com o contato que tenho com poucas, diria que são literalmente Divinas.
Embora haja o movimento libertário da mulher islâmica, em alguns locais que já experienciam relativamente uma liberdade maior, cresce também o número de mulheres convertidas à essa fé ou adeptas de algum movimento espiritual, que para umas, podem nos privar de algumas liberdades, as mesmas que para outras também nos prejudicam e escravizam. O livre arbítrio, conceito universal e presente em ambas das suas filosofias, permite um encontro hipotético, porém genial de duas delas, indo em direções ideológicas opostas, parando para trocar idéias a meio caminho do destino. Uma das conversas que gostaria de ouvir. É provável que o ponto desse encontro se tornasse a chegada ideal; Situação hoje só utópica, na qual empaticamente, compreendem suas razões e expandem entendimentos, resultando em mudanças bilaterais com benefícios mútuos.
Essas terras, num tempo remoto, já estiveram juntas em uma mesma região com as que hoje conhecemos como o continente africano; Me pego a pensar: Como são as pessoas de Nairobi, de Lagos ou Luanda? Qual o cenário que elas enfrentam? Digo mesmo no sentido de Apartheid, regime da Cidade do Cabo que pode ser entendido como uma prática e conceito mundial. Estou escrevendo em 2018 D.C. e as tonalidades da pele negra, augustas, deslumbrantes, originadas em anos A.C., nos primórdios da humanidade, é um fenótipo que há 500 anos aproximadamente tem sido interpretado como marca de inferioridade social por diversos fatores históricos e culturais associados e conhecidos, embora seja sabido que muitos a admiram, mesmo que em oculto, por que pode ser escândalo demonstrar essa afeição publicamente para aqueles que não possui essa coloração, advinda principalmente da melanina e adaptação à luz solar (cientistas ainda estudam por que alguns esquimós, que vivem em regiões geladas, tem pele bronzeada). Patrice Bollon, em seu livro “ A Moral da Máscara”, já aborda a questão de maneira elucidadora e até imparcial no cenário contemporâneo e globalizado mas acrescento aqui algumas observações; Sou professor e no meu país já presenciei diversas crianças mestiças, que não seriam consideradas como “brancas” num contexto global, dizerem em alguns momentos que não são pretas e até taxarem seus amigos assim, rejeitando uma hereditariedade que poderia ser considerada uma dádiva. De qualquer maneira, no continente e nas terras que receberam a diáspora africana, é evidente, além da coloração, nariz projetado para resfriar o ar e cabelos desenvolvidos para proteger do calor, o molejo e requebrado, no modo de andar, falar e se portar, características maravilhosas, muito inspiradoras e primárias da nossa natureza. Podem refletir a realeza olvidada de Cairo e outros reinados áfricos; há estudos que embasam a afirmação de que os símbolos heráldicos e outras marcas de nobreza e impérios mais recentes foram inspirados nas monarquias e reinados do continente originário da Sapiens.
E quem são as que habitam a Antártica? Ao que sabemos, apenas pesquisadoras e cientistas; Imagine as figuras...
Até poderia textualizar mais e desejo escrever sobre o tema depois, mas voltando ao assunto dessa prosa, podemos dizer entomológico? Tá, expandido. Mais um conto:
Aracnofilia
Caminhar em Belezas é um ritual com base na Ayahuasca, essa, uma infusão de folhas, cipós e raízes que, selecionados especificamente numa multitude de vegetais e preparados num processo tão complexo e meticuloso, tem como versão mais plausível sobre sua origem, a que relata que as instruções de seu feitio foram transmitidas por algum ser de luz a um humano esolhido.
O rito consiste em bebericar uma poção dessa bebida, consagrada e abençoada por um guardião e, após cantos e hinos, caminhar em algum ambiente natural, recebendo revelações e se integrando com a bela paisagem e cenário do escolhido meio ambiente; nessa ocasião em questão, eu e um, por assim dizer, Irmão, ritualizamos e caminhamos em uma estrada de terra, por aproximadamente uma hora, para chegar em uma caverna, lá pelas bandas de Goiás.
Fizemos o caminho até a boca da caverna normal. Adentramos nessa. Preciso escrever que não aconselho entrar nesses locais sem lanternas, guias conhecedores e nem tampouco sob ação de enteógenos, como fizemos.
Até certo ponto o sol iluminava o caminho porém, depois de algumas curvas, a luz não chegava e tivemos que nos guiar pelas cordas presas nas pedras; Nesse momento a força do chá chegou.
O entendimento que tive foi o de me guiar às cegas, sem conhecimento ou visão espacial, tendo que discernir dentre as difusas informações que meus sentidos podiam receber, as que nos levariam para o caminho certo. Revelou-se à mim a conjuntura que por vezes sou desafiado a provar no meu cotidiano.
Fluíamos, tendo que confiar em sinais e indicadores que nos norteavam e orientavam sobre os obstáculos do caminho, como suporte real, uma corda guia, como se essa fosse a ligação entre nós e o invisível ao redor; Aprimorando o senso e os outros sentidos, tateando o caminho, contando com a intuição, agachando, descendo desfiladeiros, boiando em regatos, vagarosamente, prosseguíamos. Pensava na fauna que vive ali e pode se localizar, terra dos troglóbios, onde as criaturas artrópodes, especialmente as aracnídeas, eram as mais aparentes; estava ansioso por isso também, mas focava em tudo que sentia que me instruía e me compelia adiante. Eu e a pessoa nos comunicavamos pouco, mas sempre que preciso entrávamos em contato: Tá tudo bem? Tem um buraco aqui. Põe um pé nessa pedra e salta. Vai devagar nesse empoeirado e escorregadio. Passou? Beleza!
Um ponto luminoso se apresentou no que poderia ser um horizonte e passou a ser o objetivo; Chegando na clareira que o ponto representava, foi como entrar em um oásis vindo de um deserto! Nos parabenizamos; Descansamos, meditamos e apreciamos aquele ambiente magistral! Consumimos algo que tínhamos e voltamos mais tranquilos.
Já fora, nos despedimos até o próximo reencontro; decidi por passar a noite na propriedade de um guia local, que pode ser uma pousada ou campping, ficava próximo e já era conhecido amigo meu.
Outra dica é que podemos, com algumas permutas e valor de troca, fortalecer a comunidade regional. Se dinheiro, ótimo, sinta-se muito bem por poder contribuir assim, mas senão, ofereça a quantia que pode, que já faz uma diferença; seja sensível e perceba nos toques sutis e sabedoria natural, como tu podes contribuir: Trabalhos, algo não disponível ali, informações e por aí vai…perguntar e ser transparente é a melhor maneira de se integrar; nesse dia, comprei alimentos no local, contribuí no chapéu, descolei alguns itens e serviços para a casa.
Andava sem barraca e os quartos estavam ocupados por turistas. Algumas pessoas dormiam espalhadas pelo lar, então encontrei um canto e dormi sob uma mesa;
De manhã senti algo que me fez acordar e ao abrir os olhos, deitado a um lençol do chão e de lado, foco uma caranguejeira me encarando de frente; Toda peluda, não pude distinguir presas de patas muito menos com qual daquelas oculares me filmava, “falo para câmera 6 ou 8 produção?”
Aranhas inspiram medo para a maioria das pessoas, salvo as que gostam; Não era apaixonado pela criatura mas também não a rejeitei, pelo contrário, na verdade gostei do encontro. A construção domiciliar na qual estava é relativamente grande comparada ao seu tamanho, porque será que ela quis passar por ali? Pensei no que me fez passar pela caverna no dia anterior, habitat natural delas, onde eu também sou minúsculo. Concluí que aquela casa foi construída em seu ambiente, o mesmo que também pertence aos humanos, espécie que também represento.
No geral, não oferecem perigo, mas sabemos que normalmente não curtem muito o homem (como a maioria dos animais e criaturas), por isso, essa atitude de se aproximar, aguardar meu despertar ou me despertar sutilmente, com seus pelos ou por telepatia, nos fez ter uma espécie de ligação.
Nos encaramos assim, a um palmo, por algum tempo antes que eu levantasse a cabeça e os ombros calmamente para que ela deslizasse sob, tranquilamente, movimentando suas perninhas, múltiplas, cheia de si, bem comigo! Que gracinha! Prazer!
Sempre que sinto que estou em unidade com um ente, seja vegetal, mineral, animal, humano ou ainda, ambiental em si e até mesmo de fora desta cúpula terrena, me sinto extremamente honrado; Mesmo sendo uma situação de pouco reconhecimento popular, até por que, numa retórica, para nós humanos, que dominamos a natureza e a devastamos para manter o nosso estilo de vida, é difícil entender e admitir a relação de interdependência que todos tem com o todo; Nossos modos causam uma separação que desequilibra o ecossistema e é de conhecimento geral que essas ações prejudicam a nós mesmos; Por isso, gosto muito quando sou íntimo e confiável da natureza, mesmo quando às vezes isso pode ser desagradável. Intitula essa próxima:
Impertinentes Mutucas
Mutuca de Cavalo, como são conhecidas, são mesmo inconvenientes.
Se pernilongos, borrachudos ou muriçocas, depende da região, já incomodam, imagine o mosquito, melhor, a mosca, ainda melhor, a moscona, especializada em furar o couro e se alimentar do sangue de cavalos. Na estória que escolhi para descrever essas aqui, estávamos, eu e um grupo de andarilhos, fazendo um trekking na trilha considerada por algumas fontes (por mim também) como a mais bela do Brasil e uma das mais impressionantes do mundo, ao lado de Machu Picchu e Santiago de Compostela: O Vale do Pati.
Alguns ciganos e locais costumam explorar e habitar a área com cavalos, daí a explicação da presença das Mutucas. Mas estávamos fazendo a pé. Por duas vezes fiz. Poderia escrever linhas e linhas para descrever as características magníficas do local mas o leitor pode conhecer essas em posts e sites já publicados sobre; Foco nelas.
A caminhada para atravessar o vale é longa, leva dias, e já no primeiro, parando num rio para descansar, apareceram algumas. De primeira pensamos ser apenas moscas e quando começaram a zumbizar perto, sacudíamos alguma peça de roupa para espantá-las, como os cavalos fazem abanando os seus rabos. Não adiantava muito; pelo jeito elas não viam animais por muitos dias, pois a área é bem isolada, reservada, de maneira que faziam a escolha do corpo de forma indiscriminada, sem levar em conta a espécie. Enquanto a picada do pernilongo é imperceptível e só coça depois, a da mutuca é até dolorida (como a da formiga), assim que ela se assenta, pica e após, além da coceira, surge uma ferida. Por mais que as espante, são insistentes e treinadas: os golpes das roupas não as afetavam e nem as faziam desistir, cansamos de abanar camisetas e elas continuavam a pousar no corpo. Não eram muitas mas tivemos que abreviar nosso descanso ali;
Pensamos que continuando a caminhada elas sumiríam; Mas qual o que? Andaram por horas ao nosso lado, inacreditavelmente chatas! Chegamos ao ponto de pensarmos “deixa elas se alimentarem um pouco que logo desencanam”, sabendo que só as fêmeas precisam do sangue para adquirir proteína para a produção de ovos, podemos colaborar um pouco... mas não e era compreensível por que mesmo nós só tínhamos como alimento o que carregávamos e algumas frutas silvestres, conhecidas por “Massarandubas”. Conseguimos nos desvencilhar delas de outro jeito: Parando num outro riacho, ficamos vigiando uns aos outros e, assim que uma se assentava, golpeávamos. Claro que acabamos por acertar a nós mesmo por vezes porém, funcionou.
Experiência no mínimo incômoda, mas pelo convívio com elas, inspiradora; Agora para relatar uma dessas situações de união com a natureza prazerosas, escrevo essa próxima narrativa, ocorrida quando estava em uma das edições do ENCA - Encontro Nacional de Comunidades Alternativas. Para uma melhor imersão, uma dissertação rápida sobre:
Seria uma visão reducionista designar o ENCA (semelhante aos Rainbow Gatherings) só sob os termos Nova Era e movimento Hippie, haja vista que o intuito desses encontros abrange diversos objetivos e motivações que nem sempre estão associados à tais conceitos. Pela minha participação e atuação no movimento, posso sintetizar os objetivos assim:
- Sanar a relação da humanidade com o seu meio ambiente;
- Desenvolver e propagar a Permacultura;
- Religião/Espiritualidade, facilitar o conhecimento e tolerância de diferentes;
- Ampliar o conhecimento histórico e holístico de nossa espécie;
- Superar crises e sombras pessoais;
- Liberdade total, sem dano físico ou metafísico ao ambiente ou a involuntários;
- Felicidade, bem-estar individual, considerando a comunidade local e universal;
- Promover o Amor.
Tudo isso visando a viabilidade de um bom viver na sociedade contemporânea - com seus desafios e maravilhas - assumindo e entendendo a responsabilidade sobre à porvir e às posteriores; Talvez sejamos a única espécie que possuem indivíduos pensando racionalmente na sua própria evolução e condição e é possível que outras nem precisem fazê-lo. Motivos pelos quais ter idéias assim te relaciona aos adjetivos Malucos e Utópicos; O ideal está sempre mais relacionado ao teórico e na prática ao impossível, impensável já que não manifesto. Mistério é o que faz com que alguns pensem, acreditem e atuem para realizar um ideal, individual ou coletivo.
Nesses encontros, para alcançar esses objetivos, você pode, por exemplo, ter uma oficina de Canto Difônico ministrada por um tibetano na cachoeira, depois da Grande Roda do almoço e oferecer uma palestra sobre finanças pessoais, assim que escurecer, ao lado do Espaço das Crianças.
Há muito que poderia descrever sobre esses eventos e movimentações, mas como ficou combinado, por conta do momento no qual vivemos e pela resistência as mudanças que ainda temos, não devemos divulgar demasiadamente imagens, localização e informações precisas publicamente; Falamos muito sobre o chamado: Se sentir, atenda, se quer ser chamado, chame de coração. É um enorme prazer e alegria receber uma nova personalidade! Aqui não refiro o verbo receber ao interior de qualquer grupo ou instituição, mas receber na compreensão da idéia, acreditando e trabalhando pelo ideal, pessoal e coletivo.
Agora sim: "Uma memória metamórfica":
Fui no ENCA! Prefiro não citar o ano dessa edição contada aqui;
Normalmente, como é de se esperar de reuniões com esse caráter, são feitas em áreas rurais ou silvestres bem isoladas, dificultando o acesso, sendo assim, razoavelmente preservadas e no caminho trilhado até o lugar, já vamos entrando em estágios de integridade com o verde; Mas nesse era possível sair de um aglomerado urbano e estacionar o veículo já no centro da agregação, o que afetou essa coesão com o que ali já estava para grande parte dos congregados; pelo menos, positivamente falando, permitiu que muitos pudessem ter contato com uma cultura ainda velada ou hermética e que, na intenção do encontro ou da própria natureza, precisa ser pop.
Então nos banhávamos num rio, descansávamos e nos afiando, trocávamos informações em diálogos informais; como a comunidade residente não era adepta de certos costumes, tínhamos que manter algum traje de banho para não escandalizar, no entanto, tinham sítios que se podia nadar nu e momentos que olheiros avisavam se vinha alguém que pudesse julgar mal nossa nueza, necessária para certas práticas.
Um dia, em que muitos de nós estávamos bem a vontade, a beira do rio estava repleta de borboletas, com cores bem vívidas, encantavam o lugar, batendo suas asas, agraciando, nos lembrando da metamorfose, da recompensa de escolher um bom lugar e se enclausurar lagarta. O prazer que quero descrever veio quando alguma delas, do nada, se assentaram em mim e nenhuma delas em mais ninguém; Deus, que momento! Estavam em diversas partes do meu corpo, mas uma dessas se achegou ao canto da minha boca e me beijou; Desnudo, olhava o sol, sorria emocionado e expressava como podia a minha imensa gratidão, nem tanto por ser o único quanto por ter sido considerado digno e escolhido para tal. Como no dia todos presentes buscavam desde um mínimo dessa conexão, só ouvi alguém dizer: -Mitou!
Está acessível e todos podem ter uma experiência natural assim; embora eu seja capaz de entender as razões do por que se pode pensar: “Nossa, que bobagem!” ou “Quais as vantagens disso?” sei que esse tipo de pensamento bloqueia essa ligação. Pessoalmente digo que é uma honra e um prazer imensurável essa conexão particular, despretensiosa e motivada pela graça, reconhecimento e apreciação mútua interespécies ou indivíduos, sempre mas ainda mais quando exclusiva. Agradeço e retribuo como posso; esse escrito, por exemplo, tem me demandado bastante trabalho e tempo de minha atenção, nos acontecimentos, quando mergulho por inteiro, durante o dia, pensando nos detalhes, quando recebo inspirações e paro tudo para rascunhar e enquanto digito aqui, refinando e aparando as arestas. Espero que a natureza inerente em ti se agrade e que essas palavras facilitem e aprimorem essa sua relação com os bichos, plantas, pedras, meio ambiente e outros seres desconhecidos; em um encontro, como são também guiados pelo instinto de autopreservação e tem uma comunicação mais difícil, primeiro devemos ter cuidado, ou seja, já que somos os racionais, devemos zelar pela nossa integridade e a deles; Não são tão inconscientes quanto podem parecer, pelo contrário, reconhecem seu papel e existência e o interpretam da melhor forma que podem, e sempre que podem, mostram sua grandeza e demonstram seu amor; Também somos assim, concorda?
Até logo;

